
Por
Maria Elizabeth Zucolotto
Museu Nacional / UFRJ
Foi descoberto pelo menino Domingos
da Motta Botelho, em 1784.
O garoto campeava o gado quando percebeu que, ali, na invernada, havia uma
pedra grande, amarronsada, bem diferente das outras da Região. Chegando em
casa, comentou com o pai a sua
descoberta. Aquele, um fiel súdito do
Governo -- Joaquim da Motta Botelho, informou às autoridades ter
encontrado, sobre uma elevação próxima ao Rio Vaza Barrís, nos sertões de Monte
Santo, Bahia, “uma ‘pedra’ de tamanho considerável da qual se presumia
conter ouro e prata”. O então Governador, D. Rodrigo, ficou muito
impressionado com a descoberta e, no ano seguinte,1785 encarregou o Capitão-mor
de Itapicurú, Bernardo Carvalho da Cunha, de providenciar o seu
transporte para a capital, Salvador.
O Capitão Cunha escavou ao redor
do meteorito uns 4 níveis. Auxiliado por 30 homens e algumas alavancas,
conseguiu colocar o meteorito sobre uma carreta especialmente construída para o
transporte de carga tão pesada. Para facilitar a passagem, ele pavimentou uma
pequena estrada até o riacho. Tendo 12 juntas de bois atreladas ao veículo,
partiu vagarosamente sobre um leito de pedra especialmente construído para a
passagem da carreta. Seu plano era levar o meteorito até o Riacho de Bendegó
e depois para o Rio Vaza Barrís, até alcançar o Porto de Salvador e, de lá,
seguir de navio até a capital.
Tudo corria bem até a descida do
leito do riacho onde, não dispondo de freios, o veículo ganhou momento, tendo
sua velocidade acelerada em muito, o que impôs um atrito sobre os eixos,
incendiando-os. A carreta correu desenfreadamente morro abaixo, indo parar
junto com o meteorito no leito do riacho Bendegó, dentro de uma ipueira,
a apenas 180 metros do ponto de partida. Nunca se soube se algum boi veio a
morrer neste atrapalhado empenho.
Bernardo Carvalho da Cunha,
em face do acontecido e levado pelo desânimo, abandonou a façanha. Cientificado
do fato, D. Rodrigo levou-o ao conhecimento do Ministro de Estado de
Portugal, enviando-lhe alguns fragmentos do material. O fracasso,
entretanto, veio a favorecer o fato de o meteorito encontrar-se hoje no Brasil,
pois, de outra forma, teria ido parar em Portugal ou teria sido totalmente
fundido em busca de metais preciosos.
A notícia, correu o mundo e a
misteriosa “pedra” foi visitada por alguns cientistas viajantes, entre
os quais A. F. Mornay que, em 1810, suspeitando tratar-se de um
meteorito, foi a Monte Santo, encontrando-a exatamente no local onde fora
deixada, vindo a constatar que, de fato, tratava-se de um meteorito. Com muita
dificuldade, conseguiu retirar-lhe uns poucos fragmentos, que juntamente com as
observações pessoais colhidas foram remetidos a Wollaston, da Real
Sociedade de Londres.
Seis anos mais tarde, era
publicada no “Philosophical Transactions” a carta de Mornay e as
análises realizadas por Wollaston. Em suas informações, Mornay
atribuía ao meteorito o volume de 28 pés cúbicos e o peso de 14.000
libras e com as dimensões de 7 pés x 4 pés x 2 pés de espessura.
Outros visitantes ilustres foram
a dupla de naturalistas alemães, Spix e Martius, em 1820, os quais foram
conhecer o meteorito em companhia de seu descobridor Domingos da
Motta Botelho, já um homem àquela época. Encontraram o meteorito no mesmo
ponto deixado, e ainda sobre a carreta do Cap. Cunha. Com muita
dificuldade, e depois de atearem fogo à “pedra” por 24 horas,
conseguiram retirar alguns fragmentos do meteorito, os quais foram levados para
a Europa, o maior deles sendo doado ao Museu de Munique.
Como na estória da Bela Adormecida,
o meteorito permaneceu no leito do rio por cerca de 100 anos quando, em 1883, o
Prof. Orville Derby, do Museu Nacional, tomou conhecimento do
meteorito. Derby contatou o engenheiro da Estrada de Ferro Inglesa (British
Rail Road) , que construía uma extensão da estrada de Monte Santo a
Salvador, que o notificou que, em breve, a estrada alcançaria o ponto mais
próximo ao meteorito, ou seja, cerca de 100 km de distância, em terrenos
montanhosos. Contudo, os custos do transporte estariam bem acima das
possibilidades do Museu.
Em 1886, o Imperador D. Pedro
II tomou conhecimento do fato pela Academia de Ciências de Paris,
durante uma visita à França, prontificando-se a providenciar o transporte de
peça tão importante para o Rio de Janeiro, assim que retornasse ao
Brasil
Aqui , o Imperador chamou o Sr.
José Carlos de Carvalho, um oficial aposentado da Guerra do Paraguai,
primo do engenheiro da Estrada de Ferro Inglesa contatado por Derby anos
antes. Informando-se das possibilidades do transporte, José Carlos de
Carvalho procurou apoio da Sociedade Brasileira de Geografia, a qual
tomou todas as providências para que o transporte fosse efetuado. A Sociedade
encarregou-se, principalmente, da parte financeira, conseguida por intermédio
de um generoso patrocínio do Barão de Guahy, cujo nome de batismo era Joaquim
Elysio Pereira Marinho.
Organizou-se,
então, uma comissão do Império para a recuperação do Bendegó,
formada por José Carlos de Carvalho e pelos engenheiros Vicente de
Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes (Fig.1). No dia 7 de setembro de 1887, quando era
comemorado o aniversário da Independência, iniciou-se o trabalho de remoção do
meteorito, com uma solenidade cívica às margens do riacho Bendegó.
Ergueu-se ali, um marco denominado “D. Pedro II” (Fig.2 ), em
homenagem ao Imperador. Na ocasião, colocou-se dentro de uma pequena caixa de
ferro um exemplar do termo de inauguração do trabalho de remoção e um exemplar
do Boletim da Sociedade Brasileira de Geografia, que publicava um
memorial sobre o meteorito.
No relatório da viagem,
publicado em português e francês, em 1888, o Cap. Carvalho relatou
detalhadamente o transporte do Bendegó, a geografia do local e as
dificuldades enfrentadas por todos.
Na descrição da geografia local,
Carvalho deu uma visão completa da Região, mostrando o erro em que têm
incorrido muitos sábios naturalistas que visitam os sertões somente em tempos
de seca Este erro consiste em
considerarem aquelas paragens como desertos áridos, sem vegetação e
inabitáveis. Conforme a época em que o sertão é percorrido, apresenta painéis
de natureza tão diferentes, tão opostos entre si, que muitas vezes o
naturalista , ou um outro viajante qualquer, custa a crer que o sítio em que se
encontra seja o mesmo avistado por ele alguns dias ou semanas antes.
Por
ocasião das águas, o que eqüivale a dizer da Vida, a vegetação é pujante e
original, o céu límpido e a natureza encantadora. Na época das secas, todavia,
os campos se apresentam negros ou pardos e o solo, quando não arenoso, fende-se
profundamente; as árvores apresentam-se desnudas, sem folhagem, à exceção dos
juazeiros e umbuzeiros; e a paisagem toma um aspecto de Inverno rigoroso, sejam
os climas frios ou temperados. Basta, porém, que se precipitem as primeiras
chuvas para que a temperatura caia, a vegetação reviva, e, ao cabo de uns
poucos dias, o campo se reverdece e fica florido, outra vez, não lembrando em
nada a paisagem vista uns dias antes...
A Comissão do Império, após diversos estudos
geográficos, escolheu o que seria a melhor rota para o transporte do meteorito
até a Estação Férrea de Jacuricy. O caminho escolhido foi o mais curto, embora
tivesse que transpor a Serra do Acarú. Foi preciso, igualmente, construir
grande parte das estradas, pois as existentes eram muito estreitas e se
encontravam em péssimo estado de conservação.
Projetada
por José Carlos de Carvalho, mandou-se construir uma carreta que,
engenhosamente, poderia andar sobre trilhos, ou sobre rodas, dependendo das
condições encontradas no trajeto. A carreta possuía dois pares de grandes rodas
de madeira, para rodar em solo, e na parte interna, especialmente calculadas,
rodas metálicas para rodar sobre trilhos, de tal modo que, estando sobre estes
últimos, as rodas de madeira não tocassem o chão.
Por
vezes, o carretão era puxado por juntas de boi. Noutras ocasiões, pondo-se em
prática as habilidades de um marinheiro, tirava-se proveito do emprego de
estralheiras,
talhas dobradas, patescas e estropos, e de todas as engenhosas disposições de cabos
e roldanas de que o homem do mar sabe servir-se para, com esforços
relativamente pequenos, locomover pesos consideráveis.
No dia 25 de novembro, a carreta
começou a se mover sobre o leito do riacho de Bendegó. No dia 7
de dezembro, tendo se movido por apenas 17 km, esse carro primitivo de
transporte encontrou as primeiras dificuldades ao cruzar o Rio Tocas. Após dois
dias de fortes chuvas, o leito do rio até então seco, estava molhado e
escorregadio, ocasionando o descarrilamento do carretão, virando e atirando o
meteorito para dentro do riacho. Trabalhou-se por 24 horas ininterrúptas.
Fogueiras foram acesas para que se prosseguisse viagem no dia seguinte.
A transposição da Serra
do Acarú, que obrigava a uma subida de rampas de 18 a 20% de declive, foi
bastante árdua. A operação foi executada por cabos conectados ao carretão e
amarrados às árvores mais grossas, propositadamente deixadas na estrada aberta,
e puxadas com o auxílio de talhadeiras, talhas e juntas de boi. Conta o
relatório que, já quase no sopé da serra, uma árvore cedeu. Os aparelhos se
arrebentaram e o carretão precipitou-se por uma rampa de 30% de declive (km
22), indo parar, felizmente, no meio da ladeira, por ter o meteorito saltado na
frente do carretão, paralisando-o. Não fosse esta queda providencial e o
carretão se teria descarrilado para o fundo de uma grota profunda. Felizmente,
as chuvas só começaram a cair depois da passagem da Serra do Acarú. A marcha
foi interrompida sete vezes pela queda do meteorito da carreta e quatro vezes
para a substituição de eixos que se partiram.
A comissão enfrentou
diversas dificuldades, como a construção de estivados em lagoas, armação de passagens provisórias sobre o Rio
Jacuricy de 50 metros de vão, levantamento de aterros sobre baixadas alagadas,
e o corte de caminhos por entre encostas de morros pedregosos. A Comissão pode
orgulhar-se de ter realizado um dos mais, se não o mais notável transporte
já efetuado no Brasil.
Toda a marcha de 113 km
pelo Sertão, entre o local onde fora abandonado 102 anos antes, e até a Estação
de Ferro de Jacuricy, demorou 126 dias, avançando em média cerca de 900m
por dia.
No dia 14 de maio de 1888,
chegou o meteorito à Estação de Jacuricy, e no dia 16 assentou-se o marco de chegada, denominado “Barão
de Guahy”, no exato local de onde o meteorito embarcou com destino ao Museu
Nacional do Rio de Janeiro. Foi lavrado um auto com todas as informações
concernentes, junto com outro exemplar sobre a viagem, e ambos foram colocados
numa caixa de ferro deixada nas fundações do marco. Da Estação de Jacuricy
o meteorito embarcou para Salvador e, de trem, percorreu 363 km, chegando a
Salvador a 22 de maio de 1888. Lá chegando, foi pesado, verificando-se que o
mesmo tinha, então, 5360 kg .
O meteorito ficou em exposição
em Salvador durante 5 dias, e em 1o de junho embarcou no vapor “Arlindo”,
seguindo para Recife e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde
chegou no dia 15, sendo recebido pela Princesa Isabel e entregue ao Arsenal de Marinha da
Corte.
Nas oficinas do Arsenal de Marinha
foram feitos os cortes indispensáveis para o estudo da “pedra”, bem como
para a obtenção de materiais que foram doados e permutados com diversos museus
do Brasil e do mundo. Confeccionou-se, também, uma réplica do meteorito em madeira,
que o governo brasileiro fez figurar na Exposição Universal de 1889.
Este modelo hoje se encontra no Museu de História Natural de Paris.
Concluído o trabalho, o
meteorito foi transportado a 27 de novembro de 1888 para o Museu Nacional,
nessa época situado no Campo de Sant’Anna,.
Percorremos
a história do Bendegó em companhia do nosso estagiário Sandro
de O. Gomes e de um pesquisador e estudioso desse meteorito, Wilton de
Carvalho. Nossa visita aconteceu em época de seca extrema e isso nos
permitiu constatar quão dura é a vida naquele lugar e de como o sertanejo
precisa ser forte, deveras, para poder lidar com situação semelhante. Não
havendo água, quando a encontra, precisa carregá-la em baldes, por muitas e
muitas centenas de metros... O gado morre de fome não tendo o que comer ou
beber, exceto umas bem minguadas palmas que são picadas por seus proprietários.
Observa-se um interior brasileiro que praticamente não evoluiu em nada, num
contraste gritante com a modernidade das cidades vizinhas, um contraste entre
Brasis muito próximos e tão distantes!...
Retomando-se
os caminhos da História, fica-se sabedor de que, hoje, o marco “D. Pedro II”
não mais existe, uma vez que, alguns anos depois da remoção do meteorito, a
região foi assolada por uma seca enorme, cujo acontecimento o sertanejo
atribuiu, supersticiosamente, à remoção da pedra. Derrubaram o marco em busca
da pedra irmã e ali encontraram a caixa
metálica onde, segundo se diz, havia apenas um papel onde se lia “Jesus, Maria
e José”!!. Provavelmente tratava-se dos autos lidos por um analfabeto
qualquer...
Devido à estação das secas
em que nossa viagem se deu, o riacho Bendegó encontrava-se
totalmente árido. O Rio Jacuricy tinha muito pouca água e as estradas construídas
pela Comissão do Império já não se podia reconhecer.
Na Estação de Jacuricy
ainda se pode ver o marco “Barão de Guahy”, que lembra a todos como
ocorreu o famoso transporte do Bendegó.
Em Monte Santo, existe uma
réplica, em tamanho original, do Meteorito de Bendegó, mas pouco se sabe
sobre a natureza da peça original no Museu Nacional.
O
meteorito de Bendegó é uma massa irregular, de 220 x 145 x 58 cm.
lembrando, em aspecto, um asteróide. Apresenta inúmeras depressões na
superfície e buracos cilíndricos orientados paralelamente a seu comprimento
maior. Estes buracos se formaram pela queima do sulfeto troilita,
durante a passagem transatmosférica do meteorito, uma vez que o sulfeto
tem um ponto de fusão mais baixo que o restante do meteorito, consumindo-se
mais rapidamente.
A “pedra” é um
meteorito metálico, também conhecido como siderito. É constituído
basicamente de ferro, com os seguintes elementos: 6,6% Ni, 0,47% Co, 0,22%P,
e traços de S e C em quantidades bem menores, só medidas em partes por
milhão.
A superfície
convenientemente polida e atacada com ácido revela faixas, ou lamelas
entrelaçadas, segundo planos octaédricos. Esta é a conhecida Estrutura
de Widmanstatten, que pode identificar um meteorito, pois não se
consegue reproduzir artificialmente no aço terrestre.
A espessura e a
distribuição destas lamelas determinam a classificação do meteorito que,
no caso, é um octaedrito grosseiro, pois as lamelas apresentam
uma espessura média de 1,8mm.
O Bendegó
pouco oxidou passados duzentos anos de sua descoberta e, a julgar pela camada
de 435cm de oxidação sobre a qual repousava, e a parte perdida de sua
porção inferior, é de se esperar que apresente uma idade terrestre bem
avançada, ou seja: caiu naquela região há milhares de anos atrás.
Tabela 1 –
Composição do Bendegó
|
Porcentagem % |
Partes por milhão (ppm) |
||||||||||
|
Ni |
Co |
P |
C |
S |
Cr |
Cu |
Zn |
Ga |
Ge |
Ir |
Pt |
|
6,6 |
0.45 |
0.22 |
155 |
20 |
32 |
174 |
19 |
50 |
232 |
0,3 |
10,5 |
Tabela 2 – Maiores
meteoritos do mundo
1) Hoba, Namibia, 66,0 t,
1920, IVB
2) Campo del Cielo (Chaco), Argentina, 37,2 t, 1969, IA
3) Cape York (Ahnighito), Groenlandia, 34,0 t, 1894, IIIA
4) Gobi, China, 33,0 t, 1965, Iron
5) Bacubirito, México, 22,0 t, 1863, IRANOM
6) Cape York (Agpalilik), Groenlandia, 20,1 t, 1963, IIIA
7) Campo del Cielo (Mesón de Fierro), Argentina, 20,0 t, 1576, IA
8) Armanty, China, 20,0 t, 1898, IIIE
9) Mbosi, Tanzania, 16,0 t, 1930, IRANOM
10) Willamette, USA, 14,1 t, 1902, IIIA
11) Chupaderos I, México, 14,1 t, 1852, IIIB
12) Mundrabilla I, Australia, 11,5 t, 1966, IIICD-AN
13) Morito, México, 11,0 t, 1600, IIA
14) Port Oxford, USA, 10,0 t, 1859, PAL
15) Campo del Cielo (Santiago del Estero), Argentina, 10,0 t, 1997, IA

Marco Barão de Guahy como se
encontra hoje

15o dia de trabalho,
os tres membros da comissão posam ao lado do meteorito, a bandeira do II
Império.